Manejando Pastagens para Ovinos

Independentemente do tipo de animal que utilizará a pastagem, os princípios básicos de manejo são os mesmos e valem para qualquer pastagem, em qualquer lugar do planeta. Estes estão embasados na administração de dois processos aparentemente conflitantes: “as plantas necessitam de folhas para crescerem”, e “os animais necessitam das folhas para se alimentarem”. É impossível maximizar estes dois processos simultaneamente, por isto o sucesso do manejo de pastagens estará para aqueles manejadores que tenham a sensibilidade de não fazer o pêndulo do manejo se deslocar numa só direção.

Quando o manejo visa potencializar a produção de forragem, o processo se inicia pela escolha de espécies forrageiras de boa qualidade, e se estende pela necessidade de se oferecer condições adequadas de crescimento a elas. A fertilização do solo e o manejo da área foliar são os elementos centrais determinantes do crescimento do pasto que mais se pode modificar através do manejo. Uma vez criada as condições de obtenção de uma alta produção de forragem, esta tem de ser colhida pelos animais através do pastejo.

O oferecimento da forragem através de uma quantidade que potencialize o consumo dos animais é essencial, pois a eficiência na colheita da forragem produzida não significa, necessariamente, alta produção animal. O manejo com altas lotações é eficiente na colheita de forragem, mas produzem pastagens degradadas, cuja estrutura limita a ingestão de forragem e o desempenho dos animais. O controle da oferta de forragem e da altura de manejo do pasto é fundamental para se buscar acoplar o crescimento da pastagem à demanda dos animais.

A máxima do manejo de pastagens para ovinos é a de que “ovelha gosta de pasto baixo”. Esta frase, tão repetida, é fruto da correta observação, porém simplista, dos peões, técnicos e produtores de que as ovelhas, frequentemente, se encontram nos locais onde o pasto é baixo. Elas raramente, pastejam os pastos altos. Esta observação está correta, mas a expressão está equivocada. Confundem-se aquilo que é alto com aquilo que é grosseiro, de pior qualidade. A rejeição dos animais que é observada não se dá pela altura, e sim pelo teor de fibra. Este aparentemente inofensivo erro de interpretação tem enormes conseqüências negativas sobre a cadeia produtiva ovina e tem pautado ações de manejo que acarretam superpastejo pelo excesso de lotação e baixa produção de forragem pela excessiva remoção de área foliar. A conseqüência são índices de produção animal muito aquém do potencial dos pastos e pastagens degradadas.

Os erros comuns na condução do manejo de uma pastagem podem ser evitados atendendo-se estes preceitos abaixo*:

1. Não economize em sementes ou mudas. Use sementes e mudas de boa qualidade e em abundância;

2. As plantas precisam ser alimentadas para produzir. Se o solo não for fértil o suficiente (grande maioria dos casos), o que elas necessitam tem de ser provido via fertilização. Faça periodicamente uma análise do solo. Não caia no conto ou ilusão de que há planta rústica que vai bem em qualquer solo, ou que métodos de pastejam “criam nutrientes”;

3. Não coloque os animais no pasto antes do tempo necessário ao seu estabelecimento. O que se vê crescendo acima do solo, também cresce abaixo dele. Espere as plantas dobrarem as folhas e cobrirem totalmente o solo. Em pastos anuais de inverno (aveias e azevém), neste ponto algumas plantas já deverão entrar em estádio de pré-florescimento. Não há problema, não haverá perda de pasto. Ao contrário. Se a desculpa é que os animais estão precisando pasto e você não pode esperar, é porque você não está suficientemente bem organizado;

4. Entenda que a capacidade de suporte de uma pastagem significa quantidade de animais que podemos ter nela com os animais expressando o máximo de seu potencial. A lotação não remunera por isto pastagem não pode ser sinônimo de galpão ou garagem. No manejo de pastagem devemos refletir sobre qual é o produto que a remunera. O que se vende da pastagem? Este é o produto que deve ser priorizado. Animais jovens normalmente, aumentam o rendimento da pastagem por terem melhor conversão alimentar e porque uma mesma área alimenta mais animais jovens do que animais adultos;

5. Toda e qualquer pastagem, em qualquer lugar do mundo, tem comportamento de crescimento errático e variável. Em determinados momentos do ano ela produz bastante e com qualidade, noutros é o inverso que acontece. O sucesso do manejo é o resultado de como conseguimos nos adaptar, e nos moldar, a essas variações. Um exemplo muito simples disto é o direcionamento da estação reprodutiva dos animais visando concentrar parições primaveris;

6. As plantas necessitam de folhas para crescer. São elas que interceptam a radiação solar e a transformam em crescimento (forragem aos animais). Sempre que houver eliminação demasiada de folhas, o crescimento será prejudicado;

7. Não ignore ou subestime o potencial de crescimento da pastagem nativa.  As pastagens nativas, quando fertilizadas e bem manejadas, produzem tão bem quanto as melhores pastagens cultivadas. As espécies nativas são as mais adaptadas a sua região;

8. Permita aos animais consumirem o que eles mais gostam. O que define o desempenho de um animal em pastejo é a abundância de folhas que ele encontra para se alimentar. As folhas são as partes mais nutritivas e preferidas pelo animal. Manejar bem uma pastagem significa permitir os animais fazerem o que eles melhor aprenderam ao longo da seleção evolutiva, ou seja, exercerem seletividade no pastejo. Não confunda pastejo seletivo com pastejo excessivo sobre espécies preferidas;

9. Conheça e respeite o zoneamento agroclimático para forrageiras, bem como as épocas de plantio e uso das diferentes pastagens. Não existe espécie milagrosa que se adapte a todas as condições;

10. Adequar os sistemas de produção animal as características de crescimento e desenvolvimento das espécies forrageiras;

11. Entenda a relação existente entre a taxa de lotação e o desempenho animal em pastejo. Em lotações muito baixas a pastagem não é bem aproveitada e perde qualidade, embora o desempenho individual dos animais seja elevado. Em lotações excessivas a pastagem parece ser melhor aproveitada, mas é menos produtiva porque as folhas são contínua e excessivamente consumidas. O segredo é encontrar uma lotação moderada tal que signifique razoável consumo de pasto por animal e por hectare. Não há como ter as duas coisas ao mesmo tempo. O erro mais comum é o pastejo com excesso de lotação por medo de perder pasto;

* CARVALHO, P.C.F. Princípios básicos do manejo das pastagens. In: Neto, O.A.P.; Mórlan, J.B.; Carvalho, P.C.F.; Condorelli, E.M. (eds). Prática em ovinocultura: ferramentas para o sucesso. SENAR – RS, Porto Alegre, 2004. 146p.: il.

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